O que impede a IA de chegar ao core do negócio
Mirante Tecnologia
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A inteligência artificial já está presente na rotina das empresas, mas sua adoção ainda avança mais rápido do que sua capacidade de gerar valor em escala. 88% das organizações afirmam utilizar IA regularmente em pelo menos uma função de negócio, segundo o estudo The State of AI: Global Survey 2025 – McKinsey, enquanto quase dois terços ainda não começaram a escalar a tecnologia de forma abrangente pela empresa.
A Deloitte, na sua pesquisa State of AI in the Enterprise – The untapped edge, encontra o mesmo descompasso ao analisar a passagem dos experimentos para a produção onde apenas 25% das organizações levaram 40% ou mais de seus experimentos de IA para produção, embora 54% esperem atingir esse patamar nos três a seis meses seguintes.


Um piloto funciona porque permite controlar as variáveis: poucos usuários, escopo delimitado, dados selecionados e um ambiente tecnológico específico. A produção apresenta outra realidade. A solução precisa acessar dados corporativos, integrar sistemas transacionais, respeitar políticas de segurança, atender requisitos regulatórios e operar continuamente. É nesse momento que a complexidade arquitetural aparece.
A Deloitte descreve esse fenômeno como a “proof-of-concept trap”: soluções que demonstram valor em ambientes controlados encontram dificuldades quando precisam lidar com infraestrutura, integração, segurança, compliance e operação em escala.
A própria análise mostra que casos de uso inicialmente estimados para alguns meses podem chegar a 18 meses quando as complexidades de integração aparecem durante a passagem para produção.
A diferença entre os dois ambientes é estrutural:


A discussão muda de dimensão quando a IA participa de processos críticos. Hoje, a maioria das empresas ainda patina na superfície: 37% das organizações utilizam a IA apenas em nível superficial, sem alterar seus processos subjacentes, e quase dois terços (67%) ainda sequer começaram a escalar a tecnologia de forma abrangente.
Relatórios financeiros, auditorias, compliance e decisões que afetam clientes exigem um nível de controle que ferramentas genéricas de mercado simplesmente não conseguem oferecer de forma isolada. Como define o relatório da Thomson Reuters, soluções de uso geral não são suficientes para o trabalho. Em processos nos quais as saídas influenciam decisões críticas, “quase certo” não é mais uma margem aceitável de erro.
Para que essa transição ocorra com segurança, os profissionais exigem que as ferramentas de IA atendam a três condições técnicas inegociáveis:
- Proteger dados confidenciais (exigido por 96% dos profissionais);
- Ancorar respostas em conteúdo verificado e autoritativo (exigido por 94%);
- Produzir um raciocínio que possa ser explicado e defendido (exigido por 90%).
A urgência por esse rigor técnico é justificada pela responsabilidade legal e ética, que continua sendo estritamente humana. Segundo o Future of Professionals Report 2026, 47% dos profissionais afirmam categoricamente que a responsabilidade final por qualquer erro em um trabalho apoiado por IA permanece com o próprio profissional. Se a responsabilidade e o risco não são transferíveis para a máquina, a confiança na ferramenta não pode ser parcial.
É nesse cenário de alta exigência que se consolida o conceito de Fiduciary-Grade AI (IA de Alta Confiabilidade), uma abordagem para sistemas de IA destinados a ambientes nos quais segurança, explicabilidade e accountability são requisitos operacionais. Ela deixa de ser um chatbot experimental isolado para se tornar uma infraestrutura de missão crítica, concebida especificamente para ambientes corporativos nos quais segurança, explicabilidade e accountability são requisitos básicos de sobrevivência operacional.

Essa exigência reposiciona a modernização do legado. O desafio é criar uma arquitetura capaz de conectar os ativos tecnológicos existentes às novas aplicações inteligentes, preservando controles e permitindo evolução contínua. A própria Deloitte coloca integração de sistemas, permissões de dados e confiabilidade operacional entre as condições que precisam ser consideradas desde o início para transformar acesso à IA em adoção efetiva.
O cenário brasileiro reproduz uma fricção observada globalmente. 65% das instituições bancárias pesquisadas pela Febraban ainda estavam em estágio de exploração ou implementação inicial/piloto de IA, enquanto 30% já estavam em produção em escala limitada ou larga. O estudo considera a implementação em larga escala aquela em que a solução está totalmente integrada aos sistemas e processos da organização. No levantamento global da McKinsey, quase dois terços das organizações também afirmam que ainda não começaram a escalar a IA pela empresa.
A proximidade dos dois números revela que a dificuldade de sair do piloto não é uma particularidade de determinado setor ou mercado. A fricção está na própria passagem da experimentação para a transformação empresarial.
E essa passagem exige mais do que conectar um modelo aos sistemas existentes. As organizações que mais capturam valor com IA estão redesenhando a forma como o trabalho acontece. Na mesma pesquisa, empresas classificadas como AI high performers são 2,8 vezes mais propensas a afirmar que redesenharam fundamentalmente seus workflows do que as demais.

Esse dado muda a natureza da discussão sobre legado. Não basta “colar” IA sobre processos desenhados para uma lógica anterior. Para capturar valor em escala, a empresa precisa avaliar quais etapas devem ser automatizadas, quais decisões continuam sob responsabilidade humana, quais dados precisam estar disponíveis e como sistemas, pessoas e IA devem interagir dentro do novo fluxo de trabalho.
A IA, portanto, precisa parar de operar em um “aquário” tecnológico isolado e começar a fazer parte do ecossistema real da empresa. Isso exige dados acessíveis e governados, sistemas integráveis, segurança incorporada à arquitetura, mecanismos de observabilidade e processos redesenhados para combinar automação, inteligência e supervisão humana.
A Armadilha do Piloto termina quando a organização começa a medir quantos processos críticos foram efetivamente redesenhados e incorporaram IA de maneira integrada, governada e sustentável.
É nesse ponto que a modernização do legado deixa de ser apenas uma agenda de eficiência tecnológica e recebe a devida importância, se tornando uma condição para capturar o valor estratégico da inteligência artificial.
A verdadeira escala da IA depende da criação de uma arquitetura robusta que permita à inteligência atuar com confiança nos processos mais relevantes do negócio, ultrapassando a simples quantidade de modelos em produção.