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Insights / Newsletter / Edição #41

O papel da arquitetura na era da IA e do low-code

Nos últimos dois anos, a conversa sobre inteligência artificial passou rapidamente da experimentação para a pressão por escala. Organizações em diferentes setores passaram a buscar formas de aplicar IA para ganhar produtividade, acelerar inovação e transformar a forma como aplicações digitais são construídas, integradas e operadas. Com o avanço de modelos generativos e agentes inteligentes, a tecnologia começa a sair do campo da experimentação para se tornar parte central da arquitetura de software corporativa. No entanto, à medida que as empresas ganham velocidade nessa adoção, cresce também o risco de amplificar fragilidades estruturais da arquitetura digital.

Mirante Tecnologia

19 de março de 2026 8 min de leitura

O papel da arquitetura na era da IA e do low-code

Esse movimento também está mudando a forma como aplicações corporativas são desenvolvidas. Além dos ganhos de produtividade no desenvolvimento tradicional de software, plataformas low-code começam a assumir um papel importante na criação de aplicações e agentes baseados em IA. Uma previsão do Gartner em seu mais recente Magic Quadrant for Enterprise Low-Code Application Platforms aponta que, até 2028, quatro em cada cinco organizações deverão desenvolver ou implementar agentes de IA por meio de plataformas corporativas de low-code (LCAPs).

O próprio relatório recomenda que empresas utilizem plataformas low-code como ponto de partida para iniciar sua jornada de IA agêntica, combinando desenvolvimento acelerado com governança, integração e escalabilidade em nível empresarial.

Os resultados de negócio mostram que essa jornada ainda está em fase de maturação. De acordo com uma pesquisa da PwC, 30% dos CEOs reportaram aumento de receita associado ao uso de IA nos últimos 12 meses. Esse cenário indica que o potencial da IA é amplamente reconhecido, mas ainda depende de decisões mais maduras para se transformar em valor sustentável.

Esse contexto ajuda a explicar por que a discussão sobre arquitetura se mantem no centro da estratégia digital. À medida que a IA se torna mais presente nas operações, ela deixa de ser apenas uma aplicação isolada e passa a influenciar a forma como plataformas de desenvolvimento, dados, integrações e automações são estruturados dentro das empresas.

Para discutir esse cenário, convidamos Rodrigo Soares Rego, Solution Architecture Manager LATAM da OutSystems, que acompanha de perto como empresas estão estruturando suas estratégias de desenvolvimento, modernização de sistemas e adoção de IA e low-code.

Essa transição lembra movimentos tecnológicos recentes, como a própria adoção da nuvem. No início, muitas organizações migraram rapidamente para a cloud movidas pelo entusiasmo e pela pressão competitiva. Com o tempo, a maturidade trouxe uma visão mais equilibrada, na qual diferentes modelos coexistem dentro da arquitetura corporativa.

A pressão por velocidade, no entanto, cria um risco já conhecido pelos líderes de tecnologia, a ampliação da dívida técnica.

A pressão por ampliar a capacidade de adoção de novas tecnologias tende a ampliar esse cenário. Segundo previsões da Forrester, mais de 50% dos líderes de tecnologia enfrentaram níveis moderados ou altos de dívida técnica em 2025, e esse número pode chegar a 75% em 2026, impulsionado justamente pela corrida para implementar soluções baseadas em IA.

Para organizações que buscam escalar inovação digital, isso cria um paradoxo. A aceleração é necessária, mas avançar sem uma estratégia de arquitetura clara pode comprometer a própria capacidade de evolução tecnológica no médio prazo.

Nesse cenário, plataformas modernas de desenvolvimento passam a oferecer uma abordagem unificada para construir, executar e governar aplicações e agentes de IA em escala corporativa.

É nesse contexto que plataformas low-code/no-code passaram a ganhar espaço nas estratégias de desenvolvimento corporativo. O objetivo é ampliar a capacidade de entrega das equipes de tecnologia e acelerar o desenvolvimento de aplicações corporativas e soluções baseadas em IA.

Neste cenário, plataformas como a OutSystems, uma plataforma unificada de desenvolvimento low-code com recursos de IA, vêm ganhando espaço em estratégias de desenvolvimento corporativo especialmente em iniciativas de modernização de sistemas e aceleração da entrega de aplicações.

De acordo com o relatório State of Application Development, da própria OutSystems, 88% das organizações já possuem ao menos algum projeto desenvolvido com low-code, enquanto 56% classificam sua maturidade nessa abordagem como avançada ou especialista. Além de apontar também ganhos operacionais relevantes.

Além dessa eficiência operacional, o low-code tem sido utilizado como instrumento de modernização tecnológica. O mesmo relatório mostra que 73% das organizações consideram a modernização de sistemas legados central ou significativa para sua estratégia digital, enquanto 42% apontam que o legado ainda é o principal bloqueador da inovação.

Apesar desses ganhos, o uso de low-code não elimina automaticamente os riscos estruturais da arquitetura.

Quando plataformas de desenvolvimento são adotadas apenas para agilizar entregas pontuais, sem uma estratégia clara de arquitetura, governança e integração com sistemas existentes existe o risco de criar novas camadas de complexidade sobre problemas antigos. Em vez de reduzir a fragmentação do ambiente tecnológico, iniciativas isoladas podem ampliar a diversidade de ferramentas, padrões e integrações, dificultando a evolução das aplicações no longo prazo.

Esse tipo de cenário é comum em processos de transformação digital. Muitas organizações iniciam projetos de modernização buscando velocidade, mas acabam esbarrando na complexidade acumulada de sistemas legados, integrações frágeis e dependências técnicas difíceis de resolver.

Segundo um estudo da McKinsey, uma grande empresa B2B precisou interromper 25% de suas iniciativas de modernização tecnológica porque a complexidade acumulada da arquitetura tornou os projetos inviáveis financeiramente.

Essa prioridade também aparece no cenário regional. De acordo com um estudo sobre IA e transformação digital na América Latina, 29% das empresas brasileiras apontam a modernização de sistemas legados como o principal tipo de projeto de desenvolvimento em andamento, atrás apenas da automação de processos internos.

A discussão sobre low-code e inteligência artificial não deve ser tratada como um debate entre velocidade e qualidade arquitetural. Na prática, líderes de tecnologia precisam equilibrar essas duas dimensões em um cenário em que a pressão por inovação cresce ao mesmo tempo em que a complexidade dos ambientes digitais aumenta.

Nos últimos anos, empresas passaram a lidar com um volume cada vez maior de aplicações, integrações e fluxos de dados. À medida que novas iniciativas digitais surgem, muitas delas impulsionadas por IA, a arquitetura tecnológica precisa absorver essa expansão sem comprometer estabilidade, governança ou escalabilidade. Nesse contexto, acelerar o desenvolvimento se torna necessário, mas também exige visão de como essas novas camadas tecnológicas se integram ao ambiente existente.

Plataformas low-code surgem como uma resposta a esse desafio, ao ampliar a capacidade de entrega das equipes e reduzir parte da complexidade do desenvolvimento. Esse ganho se torna ainda mais relevante em um cenário em que 59% das organizações afirmam que a escassez de habilidades impacta criticamente seus projetos de desenvolvimento, de acordo com o relatório da OutSystems. No entanto, o impacto dessa abordagem depende diretamente da forma como ela é incorporada à estratégia tecnológica da organização.

Para CIOs e líderes de tecnologia, a lição central é que acelerar continua sendo necessário, mas velocidade só se traduz em vantagem competitiva quando está apoiada em uma base arquitetural sólida. A maturidade digital das organizações dependerá cada vez mais da capacidade de integrar inovação, governança e arquitetura em uma estratégia consistente de evolução tecnológica.

Nesse cenário, o papel do CIO e das lideranças de engenharia se torna cada vez mais arquitetural. Mais do que escolher ferramentas específicas, a responsabilidade passa por definir como essas tecnologias se integram ao ecossistema digital da organização, garantindo escalabilidade, governança e sustentabilidade técnica ao longo do tempo.

Isso significa equilibrar três prioridades que muitas vezes competem entre si. Acelerar o desenvolvimento de aplicações, modernizar sistemas legados e evitar o crescimento descontrolado da dívida técnica. Plataformas low-code podem ampliar significativamente a capacidade de entrega das equipes e ajudar a responder à pressão por velocidade, mas seu impacto depende diretamente de como são incorporadas à estratégia tecnológica da empresa.

Além disso, a adoção dessas ferramentas ainda enfrenta barreiras culturais dentro das organizações. Em muitos casos, líderes de tecnologia ainda associam plataformas low-code a iniciativas isoladas de áreas de negócio, e não como parte de uma estratégia estruturada de desenvolvimento.

Na prática, a discussão sobre IA e low-code é sobre como estruturar uma base tecnológica capaz de sustentar inovação contínua. Para líderes de TI, o desafio não está apenas em adotar novas tecnologias, mas em garantir que essa adoção fortaleça, e não fragilize, a arquitetura digital da organização.

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