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Insights / Newsletter / Edição #51

Brasil lidera IA nas empresas e amplia pressão sobre operações e legado

O avanço da IA nas empresas brasileiras começou a expor limitações operacionais que permaneceram administráveis durante a última década de transformação digital.

Mirante Tecnologia

11 de junho de 2026 6 min de leitura

Brasil lidera IA nas empresas e amplia pressão sobre operações e legado

O avanço da IA nas empresas brasileiras começou a expor limitações operacionais que permaneceram administráveis durante a última década de transformação digital.

Os dados do 2026 Jitterbit AI Automation Benchmark Report mostram um mercado que decidiu avançar antes de resolver parte de seus passivos tecnológicos. Apenas 17,8% das empresas brasileiras apontam orçamento como obstáculo para automação agêntica de ponta a ponta. Segurança e compliance aparecem muito acima, com 42,1%.

O que começa a limitar a escala são as condições estruturais da própria operação. Muitas empresas avançam com IA sobre arquiteturas fragmentadas, integrações frágeis e ambientes que ainda oferecem baixa rastreabilidade sobre fluxos, permissões e tomada de decisão automatizada. Em operações distribuídas, agentes passam a interagir simultaneamente com ERPs, CRMs, APIs internas e plataformas SaaS que nunca foram desenhadas para operar com autonomia contínua, contexto compartilhado e execução em cadeia. A pressão começa a atingir diretamente governança operacional, controle de identidade, observabilidade e coordenação entre sistemas.

O Brasil lidera a adoção de vibe-coding entre os mercados analisados pela Jitterbit. Hoje, 21,6% dos executivos brasileiros usam plataformas que permitem construir agentes e automações a partir de linguagem natural, sem desenvolvimento tradicional. O índice supera Reino Unido (19,6%) e Estados Unidos (15,4%). O dado sugere uma mudança relevante no comportamento corporativo brasileiro. As áreas de negócio já não esperam necessariamente ciclos longos de priorização tecnológica para automatizar operações, testar agentes ou estruturar novos fluxos de produtividade. Parte da expansão da IA começa a acontecer diretamente nas bordas da organização, fora dos modelos clássicos de desenvolvimento, homologação e controle centralizado de TI.

O crescimento do vibe-coding mostra uma mudança silenciosa na dinâmica entre áreas de negócio e tecnologia. Historicamente, iniciativas corporativas de automação dependiam de esteiras relativamente previsíveis como priorização, backlog, integração, homologação e governança. Com IA generativa, parte desse fluxo começou a ser encurtado pelas próprias áreas usuárias.

A pesquisa da Jitterbit mostra que quase um terço das empresas ainda prefere agentes embarcados em aplicações SaaS (35,1%), mas o avanço do vibe-coding já supera o uso de desenvolvimento customizado tradicional no Brasil.

Na prática, executivos estão criando fluxos automatizados, agentes de apoio operacional e assistentes especializados sem esperar ciclos longos de desenvolvimento corporativo.

Esse movimento ajuda a explicar por que o Brasil também aparece entre os mercados mais agressivos em expansão de agentes autônomos. O próprio relatório faz um alerta relevante sobre esse modelo distribuído de adoção. Ferramentas de vibe-coding vêm ampliando exposição a vulnerabilidades, criação de aplicações inseguras e expansão de shadow AI dentro das organizações.

Quando agentes passam a surgir em diferentes áreas sem coordenação centralizada, a empresa deixa de administrar somente software e passa a administrar comportamento autônomo em escala.

Os números da pesquisa ainda mostram um padrão bastante específico no mercado brasileiro. Existe forte capacidade de experimentação, mas a transição para ambientes produtivos continua gerando atrito estrutural.

Entre as empresas brasileiras, 43,7% apontam segurança e governança como principal barreira para mover projetos de IA do piloto para produção. Outros 34,7% enfrentam dificuldades de integração com sistemas legados.

Mas o dado mais relevante talvez esteja na forma como o mercado brasileiro vem lidando com essa fricção. O Brasil também lidera a quantidade de empresas que efetivamente conseguiram atravessar essas barreiras e colocar IA em produção. O índice chega a 5,2%, cinco vezes acima do registrado nos Estados Unidos. Isso revela um ambiente corporativo mais disposto a absorver complexidade operacional, conviver com maior nível de experimentação e acelerar implantação mesmo sem todas as camadas de governança plenamente estabilizadas. Em vez de aguardar maturidade arquitetural completa, parte das empresas brasileiras está avançando com IA enquanto reorganiza infraestrutura, processos e controle operacional simultaneamente.

A própria distribuição de ROI reforça esse comportamento. Hoje, 38,9% das empresas brasileiras classificam os ganhos com IA como “valor moderado”, associado principalmente a eficiência operacional. Outras 31,1% já reportam alto valor financeiro derivado das iniciativas.

O detalhe importante aqui são os retornos mais altos aparecendo nos estágios mais avançados de orquestração.

Empresas que operam ecossistemas orquestrados de agentes atingem 58,7% de percepção de alto valor em IA, enquanto organizações ainda em estágios intermediários permanecem concentradas em ganhos operacionais pontuais.

Isso ajuda a entender por que tantas iniciativas de IA parecem gerar produtividade local sem alterar indicadores estruturais da companhia. O ganho financeiro consistente surge quando os agentes deixam de atuar isoladamente e passam a operar sobre fluxos integrados, APIs, regras de negócio e processos corporativos inteiros.

Durante os últimos anos, modernização tecnológica esteve fortemente associada à digitalização de canais, migração para cloud e revisão de infraestrutura. A IA acrescenta uma nova camada de complexidade, agora a empresa precisa coordenar agentes que tomam decisões, executam ações e interagem entre sistemas diferentes em tempo real.

O relatório da Jitterbit aponta que empresas em estágios mais avançados de maturidade começam a operar estruturas multiagentes altamente distribuídas. Em ambientes orquestrados, quase 30% das organizações planejam trabalhar com mais de 100 agentes ativos já no próximo ciclo operacional.

O foco passou a ser observabilidade, controle de permissões, integração contínua, governança algorítmica e coordenação operacional entre agentes. O próprio estudo descreve esse movimento como uma mudança arquitetural profunda. As empresas deixam de administrar “100 chatbots isolados” e passam a operar ecossistemas coordenados entre procurement, jurídico, finanças, atendimento e TI.

Para lideranças de tecnologia, isso cria uma pressão inédita. A área de TI já não atua apenas como provedora de sistemas corporativos. Ela passa a responder pela estabilidade operacional de entidades autônomas distribuídas pela organização inteira.

A adoção corporativa passou a evoluir numa velocidade superior à capacidade das empresas de reorganizar seus próprios mecanismos de controle, integração e governança. Enquanto áreas de negócio aceleram implantação de agentes, automações e fluxos baseados em linguagem natural, boa parte das estruturas corporativas ainda opera com modelos concebidos para ciclos muito mais lentos de mudança tecnológica. O resultado começa a aparecer na pressão sobre arquitetura, segurança, observabilidade e coordenação operacional. A IA já se espalha pela empresa como camada de execução. A governança ainda tenta reconstruir visibilidade sobre esse movimento.

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