A Inteligência Artificial ocupa hoje um lugar central nas decisões estratégicas de empresas, governos e mercados. Ela influencia produtividade, desenho de produtos, eficiência operacional e posicionamento competitivo. Nesse contexto, analisar onde o Brasil está e quais capacidades precisa fortalecer torna-se parte da agenda de qualquer liderança que atua em tecnologia e inovação.

A discussão atual está concentrada em execução. Escalar com consistência, integrar aos sistemas estruturantes e transformar IA em capacidade organizacional são movimentos que determinam relevância no médio e longo prazo.

O cenário global

O estudo Anthropic Economic Index Report mostra que a IA avança em ritmo acelerado, mas de maneira desigual.

A distribuição global do uso de modelos em cloud oferece um recorte relevante do cenário de IA. Embora não represente a totalidade da adoção, ela indica onde está concentrada a infraestrutura que sustenta aplicações avançadas. Os Estados Unidos respondem por 21,6% do uso global, evidenciando a densidade de ecossistema e capacidade computacional instalada. A partir da segunda posição, a participação se distribui entre países como Índia, Brasil, Japão e Coreia do Sul, formando um bloco intermediário com presença técnica relevante.

Ao observar esse mapa, a análise não se limita ao consumo de um modelo específico. Ele indica onde há infraestrutura disponível, profissionais qualificados e ambiente tecnológico estruturado. Esses fatores permitem que a IA seja aplicada de forma contínua e em escala.

Essa concentração é um indicador de poder competitivo, indo muito além de um dado estatístico. Tecnologias fundacionais como a IA tendem a amplificar vantagens pré-existentes. Países com ecossistemas tecnológicos consolidados capturam mais rapidamente ganhos de produtividade, inovação e eficiência operacional.

O relatório também destaca que a adoção é desigual dentro das próprias economias. Empresas de maior porte utilizam IA com mais intensidade, especialmente em tarefas de maior qualificação, como programação, análise de dados, geração de conteúdo técnico e suporte à tomada de decisão.

Mas a adoção não é apenas desigual, ela também é contextual. No Brasil, por exemplo, há uso proporcionalmente maior de IA para tradução e serviços jurídicos em comparação à média global. Esse padrão pode refletir características estruturais do país, como a complexidade regulatória e o histórico de adoção de tecnologia no sistema judiciário.

Isso reforça que a IA não se distribui de forma homogênea nem em propósito. Ela acompanha as especializações econômicas e institucionais de cada país.

O Brasil em movimento: crescimento consistente, mas ainda desigual

Ainda que o Brasil tenha participação mais limitada no uso global de modelos em cloud, que refletem a base de infraestrutura disponível, os dados internos indicam avanço consistente na adoção de IA.

A Pesquisa de Inovação Semestral (Pintec) divulgada pelo IBGE aponta crescimento de 163% no número de empresas industriais que utilizam IA em dois anos e revelam que 41,9% das empresas industriais com mais de 100 funcionários utilizam IA, percentual que, segundo a própria Pintec, era de 16,9% no levantamento anterior.

Quando analisamos por porte, a assimetria fica ainda mais evidente:

O crescimento acelerado indica tração. A diferença por porte indica maturidade desigual. Esse padrão replica exatamente o que o Anthropic Economic Index Report identifica globalmente onde empresas maiores adotam IA mais rapidamente.

A explicação é estrutural. Organizações de maior porte tendem a ter:

  • Infraestrutura tecnológica mais robusta
  • Times dedicados à inovação
  • Maior capacidade de absorver risco
  • Melhor governança de dados

O Brasil, portanto, não foge ao padrão global. Ele reproduz internamente as mesmas desigualdades observadas no cenário internacional.

O Brasil por estados: desigualdade regional e maturidade em construção

Quando analisamos o recorte regional com base em dados de mercado e inovação, a dinâmica brasileira reforça o padrão de concentração já observado no cenário global.

O relatório Mercado Brasileiro de Software da ABES indica que o Sudeste concentra a maior parte do investimento em tecnologia no país, com destaque absoluto para São Paulo, que lidera tanto em volume de empresas de tecnologia quanto em participação no PIB nacional.

São Paulo permanece como o principal polo tecnológico do Brasil. O estado concentra a maior densidade de empresas de TI e startups do país e responde por parcela significativa do investimento privado em inovação. O Sudeste também representa mais da metade do mercado brasileiro de tecnologia da informação, com São Paulo como principal motor.

Esse protagonismo é sustentado por fatores estruturais como escala econômica, infraestrutura digital, acesso a capital e concentração de talentos qualificados. O PIB do estado supera o de muitos países da América Latina, o que amplia sua capacidade de investimento e absorção de tecnologias emergentes.

Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina também apresentam ecossistemas relevantes, com presença crescente de empresas de base tecnológica e polos consolidados de desenvolvimento de software e serviços digitais. No entanto, a densidade empresarial e o volume de investimento permanecem inferiores aos de São Paulo, reforçando um padrão de concentração regional.

Quando cruzamos esse cenário com os dados mais recentes do IBGE sobre adoção de IA por porte empresarial, a leitura se aprofunda e entendemos que a aceleração tende a ocorrer primeiro em empresas maiores e em regiões com maior concentração de capital, infraestrutura e ecossistema tecnológico.

A próxima etapa não será apenas ampliar a adoção. Será estruturar arquitetura, dados, governança e capital humano para que a IA deixe de ser um projeto pontual e se torne infraestrutura estratégica de longo prazo.

Como isso impacta líderes e profissionais de TI no Brasil

Para líderes de tecnologia, o cenário exige clareza estratégica e capacidade de execução, indo muito além apenas do entusiasmo com novas ferramentas.

A modernização de legado deixa de ser uma pauta técnica e passa a ser condição para competitividade. Sem arquitetura flexível, integração entre sistemas e infraestrutura preparada para dados, a IA simplesmente não sustenta crescimento. Organizações que mantêm ambientes fragmentados ou rígidos tendem a transformar projetos de IA em iniciativas isoladas, com pouco impacto estrutural.

Governança de dados também assume um papel central. Não apenas como mecanismo de controle ou compliance, mas como base para geração de valor. IA sem dados organizados, confiáveis e acessíveis amplia riscos e reduz retorno. Estrutura e qualidade da informação passam a ser ativos estratégicos.

Ao mesmo tempo, a estruturação de times e a capacitação contínua deixam de ser iniciativas complementares. Em um ambiente onde a adoção é desigual, tanto globalmente quanto entre empresas de diferentes portes, desenvolver competências internas é o que diferencia organizações que experimentam daquelas que escalam.

Mas há um fator estrutural que pode limitar essa jornada no Brasil: o déficit de talentos.

Os dados indicam que o mundo já enfrenta uma escassez significativa de profissionais qualificados em tecnologia, com milhões de vagas projetadas globalmente. No caso brasileiro, o estudo divulgado em 2021 projetava uma demanda de aproximadamente 800 mil novos profissionais de tecnologia até 2025, enquanto a formação anual estimada era de cerca de 53 mil profissionais, resultando em um déficit acumulado potencial superior a 500 mil talentos no período.

Embora as projeções tenham sido feitas alguns anos atrás, o ponto estrutural permanece atual, a formação de profissionais na área não acompanha, no mesmo ritmo, a aceleração da digitalização e da adoção de tecnologias como IA. Isso cria uma tensão estratégica. À medida que cresce a intenção de adoção nas empresas brasileiras, a disponibilidade de capital humano especializado tende a se tornar um dos principais gargalos para escalar projetos com consistência.

A adoção isolada, desconectada da estratégia e sem base técnica adequada, tende a gerar complexidade adicional e dívida tecnológica. Já a integração estruturada e alinhada ao core do negócio, sustentada por dados e apoiada por talentos qualificados transforma IA em vantagem competitiva sustentável.

O desafio, portanto, é construir as condições organizacionais para que ela se torne infraestrutura permanente de crescimento.

Diante desse cenário de aceleração desigual, modernização tecnológica e escassez de talentos, entendemos que superar barreiras estruturais deixou de ser um desafio pontual nas empresas. Na Mirante Tecnologia, atuamos ao lado das organizações em modelos de cocriação, ajudando a transformar estratégia em execução. Apoiamos jornadas de modernização de legado, integração de sistemas e estruturação arquitetural para que a IA deixe de ser apenas experimento. E também contribuímos na formação e fortalecimento de times, garantindo que a tecnologia esteja sustentada por capacidades internas consistentes.

Estamos à disposição para conversar sobre como estruturar essa jornada de forma sustentável e alinhada às prioridades do seu negócio.