Durante anos, a discussão sobre modernização tecnológica foi conduzida sob uma lógica financeira. Quanto custa manter sistemas legados e quanto pode ser economizado com sua substituição? Mas dados mais recentes do mercado sugerem que essa abordagem já não é suficiente.

O estudo Revealing the Hidden Barriers to Financial Access Across the Americas da Galileo mostra que organizações latino-americanas destinam menos recursos para manutenção de legado do que empresas norte-americanas, mas relatam impactos significativamente maiores sobre sua capacidade de entregar novos serviços, alcançar diferentes perfis de clientes e responder às mudanças do mercado.

Essa diferença sugere que o principal problema não está necessariamente no volume de investimento realizado, mas na capacidade das organizações de transformar seus ambientes tecnológicos em plataformas de evolução contínua.

Por que a América Latina sente mais os efeitos do legado

A maior parte das discussões sobre dívida tecnológica continua concentrada em custos operacionais, eficiência e manutenção de sistemas críticos. No entanto, o relatório aponta que a consequência mais relevante consiste na redução da capacidade adaptativa das organizações.

Segundo a pesquisa, 75% dos líderes latino-americanos acreditam que os sistemas legados limitam sua capacidade de oferecer experiências mais inclusivas e acessíveis, um percentual consideravelmente superior aos 60% observados nos Estados Unidos. Essa informação é relevante porque conecta duas agendas normalmente tratadas de forma separada, que são a modernização tecnológica e a expansão de mercado.

Essa complexidade tem uma causa raiz bem mapeada pelos executivos. O estudo revela que o maior entrave para a evolução não é a infraestrutura isolada, mas sim os silos de dados e a falta de interoperabilidade entre sistemas, apontados por 54% dos entrevistados como a principal barreira técnica.

Esse diagnóstico funciona como um alerta crítico. Arquiteturas de dados fragmentadas e fluxos interrompidos inviabilizam a aplicação eficiente de novas tecnologias de ponta, a exemplo da Inteligência Artificial generativa e de ecossistemas integrados em tempo real.

Sob essa perspectiva, a inclusão e a acessibilidade digital não devem ser interpretadas apenas como um compromisso. Elas representam a capacidade técnica de atender novos perfis de clientes, suportar diferentes jornadas digitais, responder rapidamente a requisitos regulatórios e ampliar mercados sem elevar exponencialmente a complexidade operacional.

A tecnologia está limitando a execução das estratégias de crescimento

O dado mais preocupante do estudo talvez não esteja relacionado ao legado em si. Segundo a Galileo, 48% dos executivos da região afirmam que suas organizações perderam pelo menos 10% do potencial de negócios devido diretamente a limitações tecnológicas. Quando isolamos os dados da América Latina, esse indicador sobe para 55%.

Esse cenário sugere uma mudança importante de perspectiva. Tradicionalmente, a dívida técnica é tratada como um problema interno e exclusivo da TI. Entretanto, quando quase metade das organizações associa restrições tecnológicas à perda direta de oportunidades de mercado, a preocupação deixa de ser operacional e se torna extremamente estratégica.

O aspecto mais interessante do estudo é que essa perda não está associada apenas à idade dos sistemas. A fragmentação estrutural impede que o dado estratégico flua livremente, gerando fricções graves entre diferentes plataformas, canais e áreas de negócio. Esse cenário se torna ainda mais crítico em um contexto em que a vantagem competitiva depende cada vez menos da criação de novos produtos e cada vez mais da capacidade de combiná-los rapidamente com dados, canais e parceiros.

Em arquiteturas excessivamente acopladas, qualquer mudança exige múltiplas dependências, amplia riscos operacionais e aumenta o tempo necessário para colocar novas iniciativas em produção. O resultado é uma organização que continua investindo em inovação, mas encontra dificuldades para transformar essas iniciativas em valor capturado pelo negócio.

É justamente nesse ponto que a dívida tecnológica para de ser um problema de manutenção e se torna uma restrição à inovação. Quanto maior a dependência de integrações complexas, dados dispersos e sistemas pouco interoperáveis, menor a velocidade com que a organização consegue responder às mudanças do mercado.

Capacidade adaptativa: o novo indicador estratégico para CIOs

Existe uma diferença fundamental entre transformação digital e capacidade de transformação. Muitas organizações já digitalizaram processos, migraram cargas de trabalho para a nuvem e ampliaram seus canais digitais. Ainda assim, continuam enfrentando severas barreiras para evoluir suas plataformas na velocidade exigida pelo mercado.

O estudo evidencia justamente essa tensão. Quando 76% dos executivos afirmam que os desafios de acesso e crescimento são, fundamentalmente, desafios de tecnologia, a discussão começa a ser sobre arquitetura organizacional.

Os dados mostram que a América Latina e os Estados Unidos enfrentam esse desafio por perspectivas distintas. Enquanto 41% dos líderes norte-americanos apontam a experiência do usuário e as interfaces de front-end como a principal barreira para ampliar o acesso aos serviços, 59% dos líderes latino-americanos identificam que o ponto mais crítico está na infraestrutura de back-end e na arquitetura de dados. Esse é o reflexo de um ciclo de crescimento que priorizou os canais digitais de atendimento, mas acabou gerando sistemas centrais rígidos e sobrecarregados.

A conscientização sobre a gravidade desse cenário é tão alta que o desejo por mudanças superficiais deu lugar à necessidade de reformas estruturais. Praticamente metade dos líderes de tecnologia das Américas afirma que manteria menos da metade de sua atual pilha tecnológica caso pudesse redesenhá-la do zero. Na América Latina, esse apetite por disrupção é ainda mais evidente, com 22% dos executivos defendendo a substituição completa de seus sistemas de core.

Para os líderes de tecnologia, isso exige uma mudança definitiva de foco. O objetivo não deve ser apenas mitigar a dívida técnica acumulada ao longo dos anos, mas criar mecanismos que permitam uma evolução contínua. Na prática, isso significa projetar arquiteturas desacopladas, integração orientada a domínio, plataformas escaláveis e modelos de governança capazes de acelerar mudanças sem comprometer a estabilidade das operações.

As organizações que conseguirem desenvolver essa resiliência arquitetural estarão preparadas não apenas para lançar novos produtos hoje, mas para responder com eficiência a transformações futuras que o mercado ainda não pode prever.