Nos últimos períodos de planejamento, o aumento do investimento em tecnologia não tem se traduzido, na mesma proporção, em capacidade de execução.

Segundo a Forrester, 91% dos líderes de tecnologia planejavam aumentar seus investimentos em TI para o ano de 2025. Entretanto, esse crescimento acontece sob pressão, os budgets avançam pouco acima da inflação, enquanto a demanda por entregas digitais, automação e inteligência cresce em ritmo acelerado.

Esse cenário se caracteriza pela complexidade de transformar investimento em resultado mensurável. Ambientes corporativos operam hoje com múltiplas camadas de dependência como sistemas legados, integrações críticas, regras regulatórias, dados distribuídos e arquiteturas heterogêneas que tornam qualquer evolução tecnológica uma decisão estrutural e complexa, não apenas incremental.

Nesse contexto, cada nova iniciativa carrega riscos associados à integração, à governança e à escalabilidade. O desafio passa a ser a capacidade de direcionar investimentos para iniciativas que consigam operar dentro dessa complexidade, reduzindo fricção operacional e ampliando a previsibilidade de entrega.

A complexidade como variável central de decisão

O avanço da IA, a ampliação de portfólios digitais e a necessidade de integração contínua com ecossistemas existentes elevaram o nível de complexidade operacional a um novo patamar.

O valor dessas tecnologias se concentra, majoritariamente, na reconfiguração de processos críticos, aqueles que combinam múltiplas variáveis, regras de negócio e dependências entre sistemas. São contextos em que decisões precisam ser tomadas com base em dados dinâmicos, respeitando restrições e mantendo consistência ao longo de toda a operação.

Esse cenário explica um movimento relevante onde organizações têm priorizado a construção de soluções aderentes ao seu contexto operacional, sendo necessário a hiperpersonalização, muitas vezes só encontradas em um cenário de cocriação.

Entre os principais fatores que direcionam essa decisão estão:

A construção orientada ao contexto passa, então, a ser uma extensão natural da estratégia de tecnologia.

Do produto pronto à construção orientada ao contexto

A evolução para modelos de desenvolvimento conjunto, em que soluções são construídas de forma incremental e conectadas diretamente ao negócio, reflete uma necessidade prática que é estruturar tecnologia a partir da lógica operacional da empresa.

Esse modelo permite tratar tecnologia como um ativo dinâmico, capaz de evoluir conforme novas variáveis são incorporadas ao contexto.

No entanto, avançar nessa direção não é trivial. Existem barreiras relevantes que explicam por que muitas organizações ainda operam predominantemente com soluções de mercado:

Superar esses impeditivos envolve capacidade técnica e um modelo de parceria que sustente o alinhamento contínuo entre execução, contexto de negócio e direcionamento estratégico. Ao mesmo tempo, organizações que avançam nesse modelo passam a capturar ganhos operacionais relevantes, diretamente associados à forma como o desenvolvimento é estruturado.

A cocriação reduz retrabalho ao integrar negócio e tecnologia desde o início do processo, permitindo que decisões sejam tomadas com maior nível de contexto e diminuindo a incidência de ajustes tardios que tendem a concentrar maior custo e impacto no cronograma.

A estruturação de ciclos mais curtos também impacta diretamente a velocidade de entrega. Menos tempo para atingir o mesmo resultado reduz o consumo de horas e, principalmente, o custo de oportunidade associado a atrasos na geração de valor.

Outro efeito relevante está na aceleração do aprendizado. A dinâmica contínua de testes, validações e ajustes permite evoluções mais consistentes ao longo do desenvolvimento, reduzindo dependência de ciclos longos e aumentando a capacidade de adaptação das soluções.

Esse modelo também redefine o nível de engajamento entre as áreas envolvidas. Ao operar com responsabilidade compartilhada, tecnologia e negócio deixam de atuar em lógica transacional e passam a construir soluções de forma conjunta, o que tende a ampliar a adoção e melhorar a sustentação após a entrada em produção.

Como consequência, a cocriação contribui para a redução de ineficiências estruturais ao longo do ciclo de desenvolvimento e operação, impactando não apenas o custo de construção, mas o custo total associado à evolução e manutenção das soluções.

Caso prático: como estruturamos escala em um ambiente de alta complexidade

Em um projeto recente no setor financeiro, o desafio estava na capacidade de escalar conhecimento especializado mantendo consistência operacional.

A estrutura de atendimento precisava acompanhar a expansão do portfólio de investimentos e o crescimento da base de clientes, mantendo aderência a regras, perfis de risco e particularidades regionais. Esse contexto envolvia múltiplas variáveis simultâneas, exigindo decisões rápidas, precisas e alinhadas às diretrizes institucionais.

A solução cocriada pela Mirante partiu de um modelo de IA baseado em sistemas multiagentes, onde todos eles atuam de forma orquestrada:

  • Um agente responsável por interpretar a solicitação e direcionar o fluxo
  • Um agente focado na construção de recomendações de investimento
  • Um agente dedicado à consulta e explicação de regras e produtos

Essa arquitetura permitiu estruturar o processo decisório de forma consistente, reduzindo variabilidade e ampliando a capacidade de escala sem depender exclusivamente de especialistas humanos.

O ganho esteve na organização da complexidade, estruturando regras, dados e contextos em um fluxo consistente de tomada de decisão.

Como isso impacta líderes de TI e inovação

Para lideranças de tecnologia, a discussão passa a ser sobre a capacidade de estruturar soluções profundamente alinhadas ao contexto do negócio.

A geração de valor está diretamente associada à habilidade de operar em ambientes complexos, onde integração, governança e escalabilidade precisam coexistir de forma coordenada, sem comprometer velocidade de entrega ou consistência operacional.

Esse cenário exige uma evolução na forma como tecnologia é concebida e executada:

  • Arquiteturas orientadas à composição e capacidade de integração contínua
  • Integração efetiva entre engenharia de software e estratégia de negócio
  • Capacidade de iterar continuamente sobre soluções em produção, com ciclos curtos de aprendizado
  • Modelos de parceria que viabilizem construção conjunta, com compartilhamento de contexto e responsabilidade sobre o resultado

É nesse ponto que modelos de cocriação ganham relevância prática. Em contextos de alta complexidade, esse modelo passa a ser um direcionador natural de como soluções são estruturadas. Ao combinar conhecimento profundo do negócio com capacidade de engenharia e estruturação tecnológica, esse modelo permite acelerar a construção de soluções aderentes à realidade operacional, reduzindo desalinhamentos comuns em abordagens tradicionais e aumentando a previsibilidade de entrega.

Na Mirante, temos observado que iniciativas de cocriação bem estruturadas endereçam desafios técnicos ao mesmo tempo em que estabelecem uma base evolutiva para o negócio. Ao longo dos projetos, é possível consolidar conhecimento, estruturar ativos reutilizáveis e estabelecer uma lógica de desenvolvimento contínuo, capaz de acompanhar a dinâmica do mercado e das operações.

Mais do que viabilizar entregas específicas, esse modelo fortalece a capacidade interna das organizações de lidar com complexidade, transformando tecnologia em um mecanismo consistente de geração de valor.

Nesse contexto, tecnologia passa a atuar como elemento estruturante da estratégia. E, cada vez mais, isso exige capacidade de construir com método, contexto e direção.