Durante décadas, a capacidade de desenvolver software dentro das empresas foi tratada como um recurso escasso. Mas, em um cenário em que praticamente todas as áreas demandam soluções digitais, depender exclusivamente das equipes de tecnologia tornou-se um gargalo para muitas organizações. As áreas de negócio identificavam problemas e oportunidades de melhoria, mas dependiam de ciclos de priorização dentro do TI para transformar essas demandas em soluções tecnológicas.

Esse modelo começa a mudar à medida que plataformas de low-code, automação e integração ampliam o acesso a ferramentas de desenvolvimento dentro das organizações. Nesse contexto, ganha relevância a figura do citizen developer (desenvolvedor cidadão): profissionais das áreas de negócio que passam a criar automações, aplicações e melhorias de processos sem necessariamente pertencer ao time de tecnologia.

Muito mais do que um movimento pontual, esse fenômeno vem se consolidando como um novo modelo organizacional para ampliar a capacidade de inovação e produtividade das empresas.

O avanço das plataformas low-code tem alterado rapidamente a forma como aplicações corporativas são desenvolvidas. Uma estimativa citada na análise do Gartner indica que cerca de 70% das novas aplicações empresariais passaram a utilizar tecnologias low-code ou no-code ao longo dessa década, refletindo uma mudança significativa em relação ao início dos anos 2020, quando o desenvolvimento ainda era concentrado quase exclusivamente em equipes especializadas de TI.

Plataformas corporativas de low-code têm desempenhado um papel central nesse processo. Soluções como a OutSystems permitem que empresas desenvolvam aplicações e soluções críticas com maior velocidade e menor complexidade técnica, ao mesmo tempo em que mantêm padrões de arquitetura, segurança e governança definidos pelas áreas de tecnologia. Esse tipo de plataforma tem sido um dos principais facilitadores para que iniciativas de citizen development ganhem escala dentro das organizações.

Outro indicador relevante aparece em análises sobre adoção dessas plataformas. Um levantamento citado pela Byteiota aponta que até 60% dos usuários de ferramentas low-code já são profissionais de áreas de negócio e não desenvolvedores tradicionais, evidenciando que a criação de soluções digitais está se tornando uma atividade cada vez mais distribuída dentro das empresas.

Quando o conhecimento do processo vira solução

Uma das principais vantagens do citizen development está no fato de que os próprios especialistas do negócio conseguem identificar e resolver problemas operacionais.

Profissionais que executam processos diariamente tendem a perceber oportunidades de melhoria que dificilmente seriam captadas por equipes externas ao fluxo de trabalho. Ao terem acesso a ferramentas de automação e desenvolvimento simplificado, esses colaboradores passam a transformar rapidamente esse conhecimento em soluções digitais.

Isso explica por que os primeiros ganhos normalmente aparecem em áreas com grande volume de processos repetitivos ou altamente operacionais.

Citizen development como multiplicador de produtividade

Outro efeito relevante desse modelo está no impacto sobre a produtividade organizacional.

Quando automações e pequenas aplicações passam a ser desenvolvidas dentro das próprias áreas de negócio, as empresas conseguem reduzir o tempo dedicado a atividades operacionais e liberar profissionais para tarefas de maior valor estratégico. Ao mesmo tempo, a adoção de plataformas low-code ajuda a reduzir a pressão sobre as áreas de tecnologia, permitindo que os times de TI concentrem esforços em iniciativas mais estruturais, como arquitetura de sistemas, integração de plataformas, governança de dados e modernização de aplicações críticas.

O crescimento dessas plataformas também está diretamente ligado ao aumento da demanda por soluções digitais nas organizações. Uma análise da AppBuilder de 2025 indica que 84% das empresas adotam plataformas low-code principalmente para reduzir o backlog de TI e acelerar a entrega de aplicações internas.

Nos últimos anos, o avanço das plataformas low-code e no-code se tornou um dos principais motores desse movimento. Mais recentemente, a incorporação de inteligência artificial generativa tem ampliado ainda mais esse potencial, permitindo que interfaces, fluxos de processo e integrações sejam criados a partir de instruções em linguagem natural.

Análises da Forrester indicam que o mercado global de plataformas low-code pode se aproximar de US$ 50 bilhões até 2028, refletindo a crescente adoção dessas tecnologias como parte da estratégia digital das empresas. Estimativas citadas em análises da Gartner também apontam que até 70% das novas aplicações empresariais passarão a utilizar tecnologias low-code ou no-code ao longo da década.

Esse avanço também se conecta a um conceito que tem ganhado espaço na comunidade de desenvolvimento, o chamado vibe coding. Nesse modelo, desenvolvedores e profissionais de negócio descrevem o que desejam construir em linguagem natural enquanto ferramentas baseadas em IA geram parte significativa da aplicação. Assistentes como Claude Code, Lovable, Cursor e GitHub Copilot ilustram essa tendência, em que a criação de software passa a ser cada vez mais orientada por intenção e contexto e menos pela escrita manual de código.

O papel das plataformas modernas

À medida que o citizen development ganha escala dentro das organizações, a escolha das plataformas tecnológicas se torna cada vez mais estratégica.

Plataformas modernas como a OutSystems têm ampliado o conceito tradicional de low-code ao incorporar recursos de inteligência artificial ao processo de desenvolvimento. Com assistentes capazes de gerar interfaces, fluxos e integrações a partir de linguagem natural, a criação de aplicações passa a exigir menos esforço técnico e ganha mais velocidade.

Esse movimento se conecta diretamente ao avanço do vibe coding, tendência que vem ganhando espaço na comunidade de desenvolvimento e que reforça a ideia de criação de software orientada por linguagem natural e colaboração com IA.

Nesse contexto, plataformas corporativas como a OutSystems oferecem um diferencial importante: além de acelerar o desenvolvimento com low-code e IA, permitem manter padrões de arquitetura, segurança e governança, garantindo que soluções criadas por diferentes áreas da empresa possam escalar de forma segura e integrada ao ambiente corporativo.

O novo papel do TI nesse modelo

À medida que o citizen development se expande, o papel do TI também evolui.

Em vez de atuar apenas como executor de demandas, a área passa a assumir uma função de orquestração e governança, garantindo que as soluções criadas pelas áreas de negócio estejam alinhadas com padrões de arquitetura, segurança e gestão de dados.

A democratização do desenvolvimento pode ampliar significativamente a capacidade de inovação das empresas, mas também aumenta o risco de fragmentação tecnológica caso não exista uma estratégia de arquitetura e governança. Soluções criadas de forma isolada podem gerar problemas de segurança, inconsistência de dados ou dificuldades de integração com sistemas corporativos.

Por isso, muitas organizações têm estruturado programas formais de citizen development combinando três elementos principais:

  • plataformas corporativas de automação e low-code
  • programas de capacitação para citizen developers
  • governança técnica conduzida pelo TI ou por centros de excelência

Nesse modelo, a área de tecnologia deixa de ser apenas responsável pela construção de soluções e passa a atuar como arquiteta do ecossistema digital da empresa, definindo padrões tecnológicos, políticas de segurança, integrações e boas práticas de desenvolvimento.

Esse arranjo cria uma dinâmica complementar entre tecnologia e negócio. As áreas operacionais ganham velocidade para resolver problemas locais, enquanto o TI mantém a responsabilidade pela arquitetura, segurança e escalabilidade das soluções.

Como isso impacta líderes e profissionais de TI

Para líderes e profissionais de TI, o avanço do citizen development representa uma mudança importante de posicionamento dentro das organizações.

A análise do Byteiota indica que a força de trabalho formada por citizen developers já supera em até quatro vezes o número de desenvolvedores profissionais em muitas empresas, refletindo uma mudança estrutural na forma como soluções digitais são criadas no ambiente corporativo.

Diante desse cenário, o papel do líder de tecnologia evolui significativamente. Em vez de concentrar toda a capacidade de desenvolvimento dentro da área de TI, sua responsabilidade passa a ser estruturar as condições para que a inovação aconteça de forma distribuída e segura dentro da organização.

Isso envolve definir plataformas corporativas adequadas, estabelecer modelos de governança, garantir integração entre sistemas e capacitar as áreas de negócio para que possam desenvolver soluções sem comprometer a arquitetura tecnológica da empresa.

Nesse contexto, a escolha das plataformas tecnológicas passa a ter um papel central. Na Mirante, por exemplo, a parceria com a OutSystems tem permitido apoiar empresas na implementação de estratégias de desenvolvimento mais ágeis, utilizando plataformas low-code para acelerar a criação de aplicações sem abrir mão de padrões de arquitetura, segurança e governança definidos pelo TI.

Com a evolução das plataformas de desenvolvimento impulsionadas por inteligência artificial, o papel dessas tecnologias tende a se expandir ainda mais. A combinação entre low-code, IA generativa e automação promete reduzir drasticamente o esforço necessário para criar aplicações corporativas. Nesse cenário, iniciativas de citizen development deixam de ser apenas um mecanismo de produtividade e passam a se tornar um componente estratégico da capacidade de inovação das organizações.

Quando bem estruturado, ele não representa uma perda de controle para a equipe de tecnologia. Ao contrário, ele permite que a área de tecnologia escale sua capacidade de impacto, direcionando especialistas para iniciativas estratégicas como modernização de sistemas, arquitetura de dados, inteligência artificial e integração de plataformas, enquanto soluções operacionais passam a ser resolvidas mais rapidamente pelas próprias áreas de negócio.

Nesse modelo, o TI deixa de ser apenas um fornecedor de tecnologia e passa a atuar como habilitador da inovação distribuída dentro da empresa.