Nos últimos anos, a nuvem esteve no centro da transformação digital das empresas. E, embora o tema nunca tenha saído da agenda executiva, os dados mostram que houve, sim, um período recente de desaceleração no ritmo de crescimento.

Entre 2022 e o início de 2023, a taxa de crescimento ano contra ano (YoY) do consumo de cloud caiu de cerca de 40% para aproximadamente 21%, segundo dados da pesquisa State of AI Report 2025 da Battery Ventures. Em termos absolutos, o consumo continuou crescendo, mas em um ritmo significativamente mais moderado.

O freio não foi tecnológico, mas macroeconômico e estratégico. Diante de um cenário de maior pressão por eficiência, muitas organizações passaram a:

  • renegociar contratos com provedores de cloud
  • reduzir desperdícios e recursos ociosos
  • desligar ou redimensionar workloads pouco críticos

Em outras palavras, a cloud continuou crescendo, mas sob uma lógica de otimização e racionalização de custos, e não de expansão acelerada. Esse movimento foi amplamente reconhecido pelo mercado como uma fase de cloud cost optimization, e não como uma perda de relevância da nuvem.

O que os dados mais recentes mostram é que esse ciclo ficou para trás.

A nuvem não apenas voltou a acelerar, ela entrou em um novo ciclo estrutural, agora impulsionado pela adoção da inteligência artificial em escala, com workloads muito mais intensivos em computação, dados e capacidade de processamento contínuo.

O mercado financeiro foi o primeiro a precificar essa mudança.

De acordo com o State of AI Report 2025, empresas com forte exposição à IA já representam 50% do valor total do S&P 500. Mais do que isso, desde novembro de 2022, quando o ChatGPT foi lançado, essas empresas adicionaram cerca de US$ 18 trilhões em valor de mercado, o equivalente a aproximadamente 75% de toda a criação de valor do índice no período.

Empresas sem uma tese clara de IA cresceram apenas 28%, adicionando cerca de US$ 7 trilhões em market cap. Já as empresas classificadas como AI-driven apresentaram uma valorização de 185% no mesmo intervalo, como mostra o gráfico abaixo.

Esse não é um gráfico apenas sobre tecnologia, mas sobre prioridade estratégica, competitividade e expectativa de crescimento futuro.

A nuvem entra em um novo ciclo puxado por IA

Se a IA passou a ser interpretada como infraestrutura de crescimento, é natural que a nuvem volte ao centro da agenda executiva. Esse movimento não é conceitual, ele já aparece de forma clara nos números dos principais provedores de cloud.

Após um período de desaceleração, os hyperscalers entraram em um novo ciclo de crescimento, diretamente impulsionado pela demanda por workloads de IA, que exigem muito mais capacidade de computação, armazenamento e rede do que aplicações tradicionais.

O crescimento recente da nuvem já não segue o padrão histórico de expansão orgânica observado nos ciclos anteriores. Ele é puxado por um novo perfil de consumo, orientado por IA em produção.

Ainda segundo o State of AI Report 2025, a receita anualizada combinada dos principais provedores de cloud atingiu US$ 285 bilhões, com uma reaceleração a partir de 2024, acompanhando a entrada massiva de cargas de trabalho de IA nos ambientes corporativos.

Essa leitura é consistente com análises do Gartner, que aponta a IA como o principal fator de reconfiguração das estratégias de cloud nos próximos ciclos de investimento, especialmente em ambientes híbridos e multicloud, onde eficiência, governança e controle de custos se tornam críticos.

IA em escala exige uma base tecnológica mais robusta

Esse novo ciclo de crescimento da nuvem traz uma consequência muitas vezes subestimada: a IA não escala sobre arquiteturas frágeis ou sistemas legados mal resolvidos. À medida que aplicações passam a incorporar modelos de IA, especialmente em cenários de inferência contínua, a exigência sobre os sistemas de origem aumenta de forma significativa, tanto em volume de dados quanto em requisitos de performance, integração e resiliência.

Na prática, isso significa que modernização deixa de ser apenas uma agenda de eficiência para se tornar uma condição de crescimento. É um movimento que temos observado de forma recorrente em projetos de modernização conduzidos pela Mirante, em que a adoção de IA expõe rapidamente limites de arquiteturas antigas, dependências rígidas e integrações pouco flexíveis.

Sistemas mais modulares, integráveis e preparados para operar em ambientes híbridos e multicloud passam a ser fundamentais para sustentar o aumento do consumo de cloud e evitar que a IA amplifique gargalos existentes. Quanto mais inteligente a aplicação, maior a pressão sobre a base tecnológica que a sustenta e maior o risco de transformar inovação em custo, se essa base não estiver preparada.

Crescimento dos modelos de base redefine a economia da IA

A aceleração da nuvem não acontece por acaso. Ela é consequência direta da velocidade com que os modelos de base (foundation models) estão a escalar e a gerar receita.

Esses modelos estão crescendo em uma velocidade sem precedentes, atingindo US$ 10 bilhões de Receita Recorrente Anual (ARR) até cinco vezes mais rápido do que os líderes das plataformas tecnológicas anteriores.

As projeções mostram que a OpenAI deverá crescer de cerca de US$ 6 bilhões em 2024 para US$ 100 bilhões em 2028, um aumento de 18,2 vezes. A Anthropic, por sua vez, apresenta uma trajetória ainda mais agressiva, com crescimento estimado em 70 vezes no mesmo período.

O dado mais emblemático está na velocidade. A OpenAI levou apenas 2,5 anos, desde o lançamento do ChatGPT, para atingir a marca de US$ 10 bilhões em ARR. Para efeito de comparação:

  • Google levou 8 anos
  • Meta (Facebook), 10 anos
  • Salesforce, 19 anos
  • Nvidia, 25 anos

Esse ritmo não tem precedentes. Ele mostra que o setor de modelos de IA está a gerar receita de forma significativamente mais rápida do que qualquer outra grande transição tecnológica anterior incluindo a computação em nuvem e as redes sociais.

O que isso muda na agenda da área de TI

Na prática, observamos a convergência de três forças estruturais:

  1. O mercado financeiro vem recompensando empresas que apresentam uma narrativa de IA bem definida e sustentada por execução
  2. A nuvem está para ser redesenhada para suportar workloads inteligentes em escala, com novas exigências de performance, custo e governança
  3. Os modelos de base estão a criar uma nova dinâmica de crescimento, estrutura de custos e geração de valor económico

Para líderes de tecnologia, isso muda a natureza da pergunta estratégica. Já não se trata apenas de “se devemos investir em IA” ou “quanto gastar em nuvem”.

A pergunta que realmente importa agora é: a nossa estratégia de cloud e tecnologia está preparada para capturar valor dessa nova vaga de crescimento orientada por IA ou estamos apenas a ampliar consumo sem impacto proporcional no negócio?

O mercado já respondeu à primeira parte dessa equação. A segunda depende das decisões que estão a ser tomadas agora.